domingo, 22 de novembro de 2009

A Sereia Branca

Hoje terei a sereia branca
pousada solerte no Hotel Del Mar.

Nesta noite paulistana,
noite fria em que mal se enxerga,
noite de nuvem, noite de névoa,

espíritos lassos e bairristas
entre quadriláteros assimétricos
e palmeiras ancestrais

habitam nas praças, nos canteiros,
conduzem carros,
transeuntes.

Que importam as guerras,
a fome, a morte?
Hoje terei a sereia branca....

Do alto de minha cidade,
de bem acima dos arranha-céus,
sinto-a sozinha no azul primeiro.

Uma confidência pura, simples e celeste
se desprende dos céus de Mário de Andrade
e retorna em código ao calçamento.

Revejo meus pares desinformados,
descubro fantasmas que antes não vira;
acrescentam água, cal, cimento.

Hoje terei a sereia branca
pousada solerte no Hotel Del Mar.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Valsa Clara

A valsa tocava para Elisa,

era por e para Elisa,

e não havia, na constelação

de demônios que nos assola,

sombra ou força de trevas

que a pudesse abalar.


Os sons, as vozes, eram outros,

ainda bem cedo de manhã,

antes que as pessoas

entrassem no trabalho.


Pouco depois, a rotina

lhes impunha (ou res-

taurava, como queira),

a voz baixa, o falar pouco,

o rosto sério, o olhar atento.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

comatemática

Eu coma
Teu coma
Ele coma
Nós comas
Vós comas
Eles comas

E só despertem,
e só despertemos do coma
para assaltar a geladeira às três.

nada e mais um pouco

nada e mais um pouco

este foi sempre
meu pedaço de chão

pedras em bloco, concreto ereto
como escapar, a corda no chão

dia bom (dia)

papel e folhas
textos, fotos

quem sabe ou saberá
acomodar, recolher tantos vestígios
que amam e perdoam e tornam a nada

(enquanto isso, a pequena Clarissa
sopra bolhas de sabão).

sábado, 12 de setembro de 2009

um sopro de vento

um risco, um traço,
um sopro de vento.

o maior problema não será enfrentado,
nem o segundo, nem o terceiro.

os marcos antigos foram removidos
e as cercas dão conta de outro massacre.

economizar papel e perder tantas vidas
parece uma estranha preocupação ecológica.

nadar no mar, ir às ilhas,
reviver no rio um imenso folclore...

(não, andré,
não é o momento...)

eu sou apenas um sopro de vento,
um sopro de vento e nada mais.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Rascunho

Vou tentando reparar
coisas que fui.
Fazendo novas curvas
abertas no tempo aveludado...
sinuosas e furtivas
linhas pessoais.
Sempre deselegantes
as linhas regressas.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Simplesmente

Olhei a velha árvore
grande e verde.
Olhei as raízes.
Olhei as folhas.
Olhei os frutos...
Com um profundo olhar
que não gostei.

Quatro Anos

Uma criança terna
brinca com o tempo.
Feliz sozinha.
Poeta só ela.
Eterna ....

Fico

Vou ficando sem a visita própria,
nos momentos planificados,
pela realidade, do pranto e do lamento.
Não é força. Não sei quanto me entrego
sem afeição ou entendimento,
à esse tempo suposto e inesperado.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Sementes de Fé

A fé é absolutamente necessária, porém a fé isolada não basta para nosso propósito. Porque podemos ter fé e ao mesmo tempo deixar Deus fora de nossas vidas.
Anônimo

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Vivos

Os sentimentos não morrem.
Eles perpetuam vontades
sobre-humanas, viscerais.
Que idéia?! Possuir sentimentos...
Mera tentativa de assassiná-los,
de culpá-los.
Sejam livres os sentimentos
imortais, infinitos e etéreos.
Esses fantasmas incontroláveis
como o mar, invólucros de vida
própria.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Uma Rosa

Uma rosa são mil flores
Infinitas quanto
os perfumes rosas
Uma flor sem rosas,
ainda teus rosas,
são tantas flores

Momento

Disse o poeta que para escrever basta começar e em tantos começos nossos, deveriam bastar os assuntos triviais. Escrever as linhas do cotidiano com poesia esgotando os cadernos de perenidade momentânea, já que a vida possui rima e métrica sempre. Seja esse amor insolúvel, indelével no sonho, matéria prima de qualquer começo e razão insana e apaixonada de contemplação da vida. Só e apenas no começo de cada linha como a minha e tua respiração.

Dia 30

Hoje o dia foi difícil. Esses dias como o tempo que tem feito; cinzento, sem horizonte. Cabe até pensar em uma similaridade não muito casual. Os dias chuvosos um dia irão passar. Como eu gostaria que dias difíceis e assuntos difíceis, fossem assim. Mas cada dia difícil é uma proposta, requer mais que paciência, inteligência, sabedoria e serenidade. Não raro, procuro muito fundo nestas capacidades, habilidades e experiências, mas não encontro nada muito eficaz. Minha fé não me abandona, mas fé é uma coisa que só cabe nela mesma. Esse é um texto perdido para um dia cheio de constatações supostamente muito realistas. Um sofrimento cinza como o dia de hoje diz que não quer ir embora, que não vai mudar. Não é verdade. Existem coisas que são maiores que meus sentidos, instintos, verdades e previsões. Resta um desejo de ver feliz e ficar feliz. Dele, e só, é o que devo sempre lembrar.