Hoje terei a sereia branca
pousada solerte no Hotel Del Mar.
Nesta noite paulistana,
noite fria em que mal se enxerga,
noite de nuvem, noite de névoa,
espíritos lassos e bairristas
entre quadriláteros assimétricos
e palmeiras ancestrais
habitam nas praças, nos canteiros,
conduzem carros,
transeuntes.
Que importam as guerras,
a fome, a morte?
Hoje terei a sereia branca....
Do alto de minha cidade,
de bem acima dos arranha-céus,
sinto-a sozinha no azul primeiro.
Uma confidência pura, simples e celeste
se desprende dos céus de Mário de Andrade
e retorna em código ao calçamento.
Revejo meus pares desinformados,
descubro fantasmas que antes não vira;
acrescentam água, cal, cimento.
Hoje terei a sereia branca
pousada solerte no Hotel Del Mar.
domingo, 22 de novembro de 2009
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Valsa Clara
A valsa tocava para Elisa,
era por e para Elisa,
e não havia, na constelação
de demônios que nos assola,
sombra ou força de trevas
que a pudesse abalar.
Os sons, as vozes, eram outros,
ainda bem cedo de manhã,
antes que as pessoas
entrassem no trabalho.
Pouco depois, a rotina
lhes impunha (ou res-
taurava, como queira),
a voz baixa, o falar pouco,
o rosto sério, o olhar atento.
era por e para Elisa,
e não havia, na constelação
de demônios que nos assola,
sombra ou força de trevas
que a pudesse abalar.
Os sons, as vozes, eram outros,
ainda bem cedo de manhã,
antes que as pessoas
entrassem no trabalho.
Pouco depois, a rotina
lhes impunha (ou res-
taurava, como queira),
a voz baixa, o falar pouco,
o rosto sério, o olhar atento.
terça-feira, 3 de novembro de 2009
comatemática
Eu coma
Teu coma
Ele coma
Nós comas
Vós comas
Eles comas
E só despertem,
e só despertemos do coma
para assaltar a geladeira às três.
Teu coma
Ele coma
Nós comas
Vós comas
Eles comas
E só despertem,
e só despertemos do coma
para assaltar a geladeira às três.
nada e mais um pouco
nada e mais um pouco
este foi sempre
meu pedaço de chão
pedras em bloco, concreto ereto
como escapar, a corda no chão
este foi sempre
meu pedaço de chão
pedras em bloco, concreto ereto
como escapar, a corda no chão
dia bom (dia)
papel e folhas
textos, fotos
quem sabe ou saberá
acomodar, recolher tantos vestígios
que amam e perdoam e tornam a nada
(enquanto isso, a pequena Clarissa
sopra bolhas de sabão).
textos, fotos
quem sabe ou saberá
acomodar, recolher tantos vestígios
que amam e perdoam e tornam a nada
(enquanto isso, a pequena Clarissa
sopra bolhas de sabão).
sábado, 12 de setembro de 2009
um sopro de vento
um risco, um traço,
um sopro de vento.
o maior problema não será enfrentado,
nem o segundo, nem o terceiro.
os marcos antigos foram removidos
e as cercas dão conta de outro massacre.
economizar papel e perder tantas vidas
parece uma estranha preocupação ecológica.
nadar no mar, ir às ilhas,
reviver no rio um imenso folclore...
(não, andré,
não é o momento...)
eu sou apenas um sopro de vento,
um sopro de vento e nada mais.
um sopro de vento.
o maior problema não será enfrentado,
nem o segundo, nem o terceiro.
os marcos antigos foram removidos
e as cercas dão conta de outro massacre.
economizar papel e perder tantas vidas
parece uma estranha preocupação ecológica.
nadar no mar, ir às ilhas,
reviver no rio um imenso folclore...
(não, andré,
não é o momento...)
eu sou apenas um sopro de vento,
um sopro de vento e nada mais.
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Rascunho
Vou tentando reparar
coisas que fui.
Fazendo novas curvas
abertas no tempo aveludado...
sinuosas e furtivas
linhas pessoais.
Sempre deselegantes
as linhas regressas.
coisas que fui.
Fazendo novas curvas
abertas no tempo aveludado...
sinuosas e furtivas
linhas pessoais.
Sempre deselegantes
as linhas regressas.
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
Simplesmente
Olhei a velha árvore
grande e verde.
Olhei as raízes.
Olhei as folhas.
Olhei os frutos...
Com um profundo olhar
que não gostei.
grande e verde.
Olhei as raízes.
Olhei as folhas.
Olhei os frutos...
Com um profundo olhar
que não gostei.
Fico
Vou ficando sem a visita própria,
nos momentos planificados,
pela realidade, do pranto e do lamento.
Não é força. Não sei quanto me entrego
sem afeição ou entendimento,
à esse tempo suposto e inesperado.
nos momentos planificados,
pela realidade, do pranto e do lamento.
Não é força. Não sei quanto me entrego
sem afeição ou entendimento,
à esse tempo suposto e inesperado.
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Sementes de Fé
A fé é absolutamente necessária, porém a fé isolada não basta para nosso propósito. Porque podemos ter fé e ao mesmo tempo deixar Deus fora de nossas vidas.
Anônimo
Anônimo
sexta-feira, 31 de julho de 2009
Vivos
Os sentimentos não morrem.
Eles perpetuam vontades
sobre-humanas, viscerais.
Que idéia?! Possuir sentimentos...
Mera tentativa de assassiná-los,
de culpá-los.
Sejam livres os sentimentos
imortais, infinitos e etéreos.
Esses fantasmas incontroláveis
como o mar, invólucros de vida
própria.
Eles perpetuam vontades
sobre-humanas, viscerais.
Que idéia?! Possuir sentimentos...
Mera tentativa de assassiná-los,
de culpá-los.
Sejam livres os sentimentos
imortais, infinitos e etéreos.
Esses fantasmas incontroláveis
como o mar, invólucros de vida
própria.
quinta-feira, 30 de julho de 2009
Uma Rosa
Uma rosa são mil flores
Infinitas quanto
os perfumes rosas
Uma flor sem rosas,
ainda teus rosas,
são tantas flores
Infinitas quanto
os perfumes rosas
Uma flor sem rosas,
ainda teus rosas,
são tantas flores
Momento
Disse o poeta que para escrever basta começar e em tantos começos nossos, deveriam bastar os assuntos triviais. Escrever as linhas do cotidiano com poesia esgotando os cadernos de perenidade momentânea, já que a vida possui rima e métrica sempre. Seja esse amor insolúvel, indelével no sonho, matéria prima de qualquer começo e razão insana e apaixonada de contemplação da vida. Só e apenas no começo de cada linha como a minha e tua respiração.
Dia 30
Hoje o dia foi difícil. Esses dias como o tempo que tem feito; cinzento, sem horizonte. Cabe até pensar em uma similaridade não muito casual. Os dias chuvosos um dia irão passar. Como eu gostaria que dias difíceis e assuntos difíceis, fossem assim. Mas cada dia difícil é uma proposta, requer mais que paciência, inteligência, sabedoria e serenidade. Não raro, procuro muito fundo nestas capacidades, habilidades e experiências, mas não encontro nada muito eficaz. Minha fé não me abandona, mas fé é uma coisa que só cabe nela mesma. Esse é um texto perdido para um dia cheio de constatações supostamente muito realistas. Um sofrimento cinza como o dia de hoje diz que não quer ir embora, que não vai mudar. Não é verdade. Existem coisas que são maiores que meus sentidos, instintos, verdades e previsões. Resta um desejo de ver feliz e ficar feliz. Dele, e só, é o que devo sempre lembrar.
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