sábado, 11 de setembro de 2010

Estudo nº 3

Olhas o mundo com desdém,
enquanto a paixão te consome.
Os coletivos passam,
os homens esperam em fila,
os engraxates esperam,
as prostitutas esperam,
e teu olhar paira distante
sobre tanta espera represada.

Permaneces inerte
naquele antigo
transe
e percebes
o quanto és pequeno
ainda,
o quanto és tolo
ainda.

Entanto, herdas um pouco de
tudo:
dos mendigos, polida esperança,
dos palhaços, a luta e a dança,
dos pássaros, a manhã!
Ode ao poeta morto!
Ode ao profeta vivo!
Ode, plasmode, desode!
Pra que tanta ode, meu Deus?
Se quiseras, apenas, (quiseras?)
botar em fogo essa paixão
que te devora o coração.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Poema só para Marcelo e Marília

Na curva ruidosa dos 42
eu entro rasgando embalado a 90
(Fahrenheit, na sombra)
na estrada velha, estrada
de bem antes do meu tempo,
essas reservas colossais de tempo
de que falou o poeta
e que agora compreendo.

A floresta antiga, ancestral,
a lima da rima seca, lavada
no orvalho da Europa outonal.

(A velha cerca ao pé da estrada,
madeira, carros e ferramentas,
a vizinha de botas e jardineira
cresceu, desandou, força menina,
a chuva rala na velha estrada).

As árvores nuas no cinza do céu,
Coberto de folhas, molhado, o chão,
Na breve passagem do verde ao marrom,
Começo de outono, final do verão.

Uma Luta Diária

Eu luto diariamente para manter a minha vida e a de minha família. E notei que a felicidade vem de um esforço de abnegação. Amizade significa entrega e amor significa entrega infinita. Eu estou em busca de amor pleno e ele é incondicional.

Mas muita gente não pensa assim. É uma decisão que todos precisamos tomar, sobre o quanto podemos ou queremos amar. Eu penso que o amor precisa ser incondicional porque, nesta vida, sempre vai haver quem nos confronte.

Não sabemos o que nos está reservado, por isso é bom aprender, desde cedo, a viver e sofrer com paciência. Posso pedir ajuda a homens, mas a minha esperança está no Senhor. Por isso, a cada dia sou mais respeitoso e calmo com os homens.

Há algum tempo, diante das notícias tristes na TV, reparei que há muitos que falam de Deus, mas esquecem da democracia e da república, do socialismo e do liberalismo, do direito e da justiça. E senti clara e calmamente que o meu chamado era o de um libertário.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Inocência Perdida

Ela era um 
fragmento rudimentar, 
aventurava-se com graça
quando encontrou-a,
envolveu-a em trapos e correntes 
e perfurando-a com agulhas,
saiu carregando numa caixa.

Transeuntes e policiais
interferem e descobrem
o segredo sanguinário.
Ela late, eles mordem
e morrem
pela mera e profunda 
necessidade de expressão
da sua faca.

Já vão loucos,
dois pólos opostos
em abraço exotérmico.

sábado, 4 de setembro de 2010

Estudo nº 2

Na casa de meus pais,
havia luz e vastos cômodos
esperando por serem habitados.
Placa de cobre sobre a lareira,
óleos antigos nas paredes.

Os membros, todos,
estavam fora ou haviam morrido.

O casamento
precocemente desfeito
(desamor ecoando
pelos cantos da casa).
O medo da mãe, a ânsia
do pai.

Do casal de filhos,
sobrara apenas um
(a falta de mãe,
a falta de pai).

Havia ainda uma velha avó,
uma neta crescendo
e uma cachorra,
(desde cedo
adotada como membro pleno).

Caberia à menina
retomar a senda da prole?

Ou teria, ainda,
este velho e pluvioso poeta
a fome de pôr filho no mundo,
desejo puro de gerar descendência
bem antes de muito pensar

em rosas colhidas à beira da estrada,
seu doce perfume que vem e se esvai,
musas sorridentes, oniscientes,
(a falta de mãe, a falta
de pai).

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A Lage

A vida inteira passada na lage,
a lage larga em frente ao quarto,
bem mais cedo, mais tarde,
melhor era a lage.

Da lage larga em frente ao quarto,
olhando o mundo passando no asfalto,
os carros correndo, destinos, trajetos,
o tempo parado passado na lage.

Da lage larga em frente ao quarto,
de repente, descer,
fazer parte do mundo,
praticar atos, ter
deveres, direitos,
questões, soluções,
iniciativa, vontade,
saudade, amor...

Mas a vida inerte aguardava na lage,
a lage larga em frente ao quarto.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Estudo

Sinto-me pequeno
ante a estatura do poeta
e a solidez do seu imaginário.

Mas é preciso, preciso, preciso,
esse pouco de solidão
que o seu convívio me empresta.

Música ao longe na praia,
retrato na parede, lembranças,
a rosa escorrendo no asfalto.

O poeta se veste com fúria,
(o poeta, despido, declina),
todas as faces em uma.

A marcha dura, poeta.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

O Dançarino

O dançarino dança
no chão, no ar, no ar, no chão...
E da forma como ele dança,
ao rufar de antigos tambores,
evade-se me a lembrança
de pretéritos findos amores.

Em sua dança há de haver
algum ar e um sentir quase nada,
enquanto seu corpo avança,
sua alma o contempla, parada.

Dança, dançarino, dança,
que eu, de um distante outeiro,
vislumbro em teus passos largos
a vida que eu quis por inteiro.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Man Beyond

There is a reason

Far beyond these walls

And these hills


There is a reason

High up the river

Among the distant tribes


The man is the man

Is the man

All Your Blues

All your blues
are here today
come rain or shine
or come what may
all your blues
are here today

All your blues
are on the bus
they belong
to all of us
all your blues
are on the bus

All your blues
are down the line
when you see
your love or mine
all your blues
are down the line

All your blues
they will be gone
and you will shine
like everyone
all your blues
they will be gone

tomorrow

O Homem Forte

O lugar algum
E o corpo de coisa nenhuma
Aportaram em meu silêncio
e se fizeram sem mesmo ser

não serei mensageiro de água
salvo a gota escassa de um sertão
que em meu livro é arma de fogo
e vaga, sua circulação

feito a águia voando em círculo,
em círculo, eu ando e vou;
o eclipse lunar não me toca,
mas me tocam as ondas do mar,
quebrando, elas vindo no raso

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Aquilo no Sapato

o dia foi bom
mas no final havia aquilo

subir e descer, entrar e sair
sorvete, sujeira, chiclete, algodão

aquilo no sapato,
a sobra mais permanente do dia

terça-feira, 27 de abril de 2010

Ainda

Um vasto raio claro
Corta o céu imenso por mais um pouco de solidão.

Ainda
Sou eu e este teclado. Ainda,
O que me resta
É o que dele posso extrair.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Gadernal

Ouvir as vozes interiores
Assemelha-se a uma assembléia
[num hospício!
- fala quem não precisa a razão
- ouve quem teme o juízo perfeito.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Chove ...

Chove.

E o vento frio atravessa soprando

um silêncio sustido

Dual, travestido, de angústias vindouras.



Chove.

E dos espelhos d’alma

Vislumbro com calma [Lá fora

a saudade

[que olha meus olhos molhados]: parada



Chove.

E em tal distância

qualquer desejo de felicidade espanta

primavera dos anos de antanho.



Chove.

E as cúrias vãs da memória

[sentado em quase embaraço]

dissolvem-se como torrão de açúcar

em meu copo de chá.