sábado, 1 de setembro de 2012

Negra Olaria (Pausa da Glória)

Vem do cortiço
a nossa história
no rebuliço
pausa da glória

e marca o passo
que vem de dentro
pausa da glória
do pensamento
alegoria
pausa da glória
pátio dos anjos
no céu da escória
saudoso átrio
sobe por dentro
desmarca o passo
do pensamento
Negra Olaria
pausa da glória
tijolo e sangue
da nossa história
pausa da glória
sejam bem-vindos
soltos em cantos
no céu dos índios
Pausa da Glória
pausa da glória
pátio dos anjos
no céu da escória

Feliz Sozinha

A criança espera
paciente junto à mesa
por um copo d'água,
pega-o com as duas mãos,
bebe um pouco, devagar,
entre as tiras de cabelo,
devolve, agradece, sorri
e sai correndo.

Oh, dear!

Ode to my old house, lost and forgotten. Ode to is nights, its cats and its daydreams. Ode to the smile of the Italian girl neighbor. Ode to the black city girl writer. Ode to the moon in silicone blue hype, ode to its whiteness in the night of creation. Ode to the sweet creature sleeping beside me. Ode to my mama for the wonderful typewriter, her healing machine, the breasts of our nation. Ode to great smiles and crazy announcements. Ode to you all happy engagements. You beggars and jokers sleeping in trousers, borne in the summer and bread in the night breeze.

Rain in my Mind

In the silence of a blue room
I seek out the light and the green
That mirrors my mind on a clear day
But the rain is all between

I send in to shadows that vanish
Like copper that melts into hell
My greetings, regards of a beggar
My sun dance in a pale grey cell

Illuminate me white soldiers
Warriors of cold and of ice
Heal me with rays of your winter
And play me your frosty device

I live to dwell among killers
Insane is my heart in my pride
But finding the gates full of wisdom
I rejoice in the room that I hide

Disgrace is a path for discover
And dishonor a shade in the light
Be brave in your rage vicious lover
Be open and down for the fight

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Ancestral

As mãos põe a mesa enquanto a luz declina nas cortinas da sala.

Entre a louça e os talheres, a mulher contempla os vestígios do dia. Usa vestido longo, um leve casaco de lã.

O rosto sereno revela o sentimento do dever cumprido.

Ao fundo, sobre a cômoda, fotos de parentes há muito falecidos e descendentes sempre bem-vindos.

Aperto nos abraços, carinho nos beijos fraternos, cabelos desfeitos; no seu sorriso, um bem-querer.

Mas no claustro da mulher, bem lá no fundo, há rios de lembranças, memórias represadas bradando por libertação. Sonhos furtivos, cada vez mais intensos...

Era tempo de sonhar e, sobretudo, lembrar-se dos sonhos. Era tempo, mais que tempo.

Ela era uma menina, quisera ser mulher. Mas talento não tinha para coisas práticas e pouco sabia sobre o amor.

Lembrava das coisas da infância, das brincadeiras simples no quintal; lembrava-se da adolescência, dos primeiros e únicos projetos a namorados.

Queria estar só, queria ir pra longe, rever sua filha, sua mãe... seu pai, seu marido; sim, mesmo ele.

Queria sumir, mas de sumir jeito não tinha. Tinha, quando muito, uma saída lateral: algumas horas de alforria, de fuga noturna, ves-
pertina ou matinal.

Sonhava com o céu, mas o céu tardava incerto.

Tinha a neta, o filho, os cachorros, a gata;
era ainda uma figura matriarcal.

Na linha tênue entre o franco desespero e a viva esperança, ela caminha deixando um rastro furtivo na areia que a cada dia o
mar enleia e de soslaio vem apagar.

sábado, 4 de agosto de 2012

Preto, azul e branco

estou em preto, azul e branco,
tudo o que eu vejo, as formas, lugares,
os dias, em preto, azul e branco 
as noites, em preto, azul e branco

estou em preto, azul e branco,
rigorosamente soturno e recluso a minhas três cores,
em meu novo fuso, minha saudade e minhas lembranças,
antiga aquarela que vem me buscar

se outrora brindei o azul e o lilás
tudo aquilo que a vida me traz
hoje se resume na luz e na seda
se resume ao frio gelo no vasto salão

estou só, estou vazio, nu e contido
estou inerte com minha espada
e abarco tudo num golpe de vista
e tudo é preto, azul e branco

sábado, 28 de julho de 2012

a mulher é a mesma

ontem, hoje e sempre
a mulher é a mesma 
a mulher é igual 

aquela frágil criatura
de vastos olhos castanhos 
que nos devora feito criança
como a meros seres humanos

onde quer que seja ou esteja
a mulher é a mesma
a mulher é igual

aquele vasto bálsamo puro
em seu desejo o verdadeiro instante
chamem a mulher assim mesmo
pé na estrada e mãos no volante

domingo, 27 de maio de 2012

Via Expressa

Na curva de acesso à via expressa,
da frase pixada, o impacto no concreto:

A vida é assim !?! 

O que responder?
Acelerar, esquecer... 

Pra jogar tudo fora, jogar tudo fora
antes ou depois de um fato qualquer.

sábado, 28 de abril de 2012

O Halo

Cavaleiro de antigas batalhas
sobre um corcel de imaculado azul
como um vítreo monumento
às galáxias nebulosas.

Desliza sobre a planície cinzenta
cortando, rosto lívido, altivo,
o halo claro e gelado do metal.

Solitário remanescente de um povo
de antigo e distante apogeu,
vaga sob o céu estampado
em busca de um caminho, um elo.

Seu olhar fita a noite deserta,
quer viver, quer amar, quer sonhar,
mas há que seguir cavalgando;
seu olhar, seu olhar, seu olhar.

domingo, 11 de março de 2012

Progresso

Aqui em frente
de onde eu moro
havia uma casa
de jardim espaçoso.

Aos domingos,
a família reunia-se no jardim,
ouvia-se o barulho de copos,
conversa, talheres, enfim.

Como tudo neste mundo
ou muda ou há de acabar,
também a casa foi vendida,
demolida e, em seu lugar,
construíram uma mansão
que é triste, é luxo,
é desolação.

Que saudade do barulho
que, domingo à tarde,
a casa fazia.
(Tinha até uma bandinha de rock...)

Que saudade do verde,
dos carros,
das chegadas e despedidas,
dos fortes, dos fracos,
do que mais há de haver.

Alguém alegre ou triste,
que eu não sou de fazer previsões,
há de ocupar a casa nova,
vertical, ereta, espectral.
Alguém rico, pouco ou muito,
alguém, somente alguém.

sábado, 10 de março de 2012

Propriedade Privada

Conecte o carregador...
a voz na calçada:
trocado, doutor?
Carregando...

sexta-feira, 2 de março de 2012

Arco-íris

O verde e o laranja
são hoje cores corriqueiras
onde ontem versejavam
o vermelho e o azul

No jardim ao redor de Clara
pássaros vão despertando
ao derredor da aurora
no rosa-lácteo tom da hora

Vou subir a São Tomé
lá tem tesouros guardados
água forte nas cachoeiras
e pedras altas pra namorar

Vou subir a São Tomé
reviver as doces lendas
cantar canções antigas
d'ocê pega o trem azul
o sol na cabeça

Ontem, hoje, sempre 
o sol dourado na janela
me acorda logo cedo 
me repõe na fila de carros
O jardim é doce esperança 
de logo ver meu Pai

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O Prego

O prego aponta
cego
na mão da mucama
entre os rumores da casa

Bate uma porta,
a menina chora
e o quarto parece pequeno
ante tanta solidão represada

Porque a poesia
é sempre tão triste
pergunta o menino
ao grave tutor
que nada não nunca responde

Cai uma chuva rala
e prosseguimos
demolindo devagar
a parede de orgulho,
egoísmo e ódio

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Aniversário do Poeta

E vamos em frente, apesar das coisas.
São tão fortes as coisas, afirmou o poeta.

Eu nesta cidade,
a praia que não se supõe,
apenas se imagina.

Rio de Janeiro, lugar de meu pai,
São Sebastião de raros amigos,
E as mãos do poeta em seu puro ofício.

Longa espera no carro, no asfalto,
São Paulo de seres tão alheios, cordatos,
Lugar, um dos poucos, em que mendigos são livres,
Raiar e ocaso da grande metrópole.

São Paulo, eu te alardeio e te guardo,
Ao que, tarde ou manhã, noite, sobre ti cai.
São Paulo, eu te respiro e te revejo no fundo
De Itabira, Itabira do Mato Dentro.

domingo, 23 de outubro de 2011

Servindo

Ser,
vir a ser,
servindo.